Lições da Índia para um novo ano melhor

Na viagem que fizemos à Índia no início deste ano, tivemos muitos aprendizados. Muitos ainda difíceis de assimilar ou até mesmo de incorporar. É engraçado como temos a oportunidade de experienciar lições e ainda assim precisarmos maturar, até que isso vire de fato aprendizado, dentro dessa grande complexidade que somos.

A Índia é um país incrível. Também acredito que não seja para qualquer turista desavisado. É preciso entender que a Índia nos dá diariamente belos tapas na cara e muito carinho. Tudo ao mesmo tempo.

 

 

Um povo, uma história fascinante. Um contraste da busca pela espiritualidade versos a incorporação de costumes ocidentais e a abertura para a globalização, com a industrialização atingindo um novo patamar.

Há também temas muito contemporâneos além da corrupção e da pobreza. Dilemas importantes acontecendo também com o crescimento do Islamismo. Os Hindus representam a maioria e preservam a vaca como um animal sagrado. Predominantemente, pode-se de dizer que a Índia é um país vegetariano. Os Muçulmanos comem carne de vaca e também a oferecem em sacrifício. Também praticam a poligamia. Um homem pode desquitar-se de suas esposas, ou gerar várias viúvas, que ficam desamparadas financeiramente e dificilmente casam-se novamente. Já a poliandria não é permitida.

É muito bonito ver como as religiões convivem pacificamente por todos os cantos mesmo que com visões completamente antagônicas. Há bastante respeito, inclusive ao falar dessas divergências. O objetivo não é fazer juízo aqui, mas a questão fundamental é como manter a laicidade do estado com questões que envolvam aspectos da religião, impactando na sociedade. Qual o ponto onde determina-se que o costume, fere a ética social daquele grupo, sem entrar na questão religiosa?

Quem acha que o Brasil é um país desigual, ao pisar na Índia se depara com a desigualdade em grandes proporções. Claro que em muitos lugares turísticos essa realidade é mascarada, como aqui.

 

Tudo na Índia é muito.

A quantidade de gente por toda parte, os cheiros, os sabores, as cores, o trânsito, os templos, as histórias, os contrastes sociais. É  tudo um grande caos aparente, porém com um nível de organização invejável. Não há como imaginar como carros não colidem, como não há tantas brigas de trânsito, como conseguem ser pontuais, como conseguem ser tão amáveis em ambientes conturbados, barulhentos, como os milhares de sapatos nas portas dos templos não são confundidos, extraviados.

Ainda que viajemos dezenas de vezes para a Índia, ninguém pode dizer que a conhece.

 

 

Mas o povo indiano lida com as questões com uma noção de propósito e da noção de tempo-espaço de uma forma muito sábia. De fato, uma cultura multimilenar, sabe que qualquer questão é um fio de cabelo, comparado a longevidade da história de seu povo.

 

Rajneesh é importante na Índia?

Nos primeiros dias, enquanto caminhava com um guia dentro de um templo, perguntei o que se pensava na Índia sobre o Rajneesh, ou popularmente conhecido como Osho no ocidente. Havia um movimento de contracultura surgindo no ocidente e Rajneesh difundiu muito a meditação fora da Índia, buscando disseminar seus conceitos sobre a pureza do ser, do amor, da sexualidade de forma muito contundente, afim de criar uma comunidade com potencial de expandir suas ideias. Ao mesmo tempo foi uma figura extremamente polêmica e visto por muitos como um falso guru, com apego a fortuna, aos prazeres, fama e ambições.

O nosso guia indiano com um sorriso suave apenas disse:

–“O Rajneesh teve seu papel na história, mas de fato o futuro é quem irá dizer”.

Apesar de uma resposta tão simples, aquilo soou como um entendimento dele, da não necessidade da ação. Ele se absteve, admitindo que sua opinião não determinaria quem foi Rajneesh, ou o que a Índia e o mundo pensarão sobre ele no futuro.

Estamos atravessando no Brasil um grande embate de pontos de vista e pouco debate. E o debate vira embate quando tentamos diminuir a importância da ideia do outro. Nos esquecemos que temos um ideal comum, que temos necessidades comuns de conquistas sociais, independente da classe social onde estamos inseridos, queremos paz, felicidade, saúde e alimento diário na nossa mesa. As últimas eleições geraram conflitos entre familiares, distanciaram amigos por puro ego. A internet e o WhatsApp viraram ferramentas de cultivar rancor.

 

“O debate vira embate quando tentamos diminuir a importância da ideia do outro.”

 

Até hoje quando ouço uma discussão ou uma tentativa de imposição de ideias, de juízo precoce sobre qualquer tema, ainda ouço aquele indiano ecoando em meus ouvidos e tento incorporar isso na minha fala. Nem sempre consigo.

Isso não significa que devemos nos omitir de qualquer tema, obviamente. Mas um bom exercício ao lidar com essas questões é fazer uma pausa, respirar profundamente, dar um passo para atrás, afim de enxergar o todo, antes de proferirmos nossas opiniões. Se diferimos politicamente ou em qualquer outro tema, podemos fazer o exercício de tentar entender, porque o outro pensa daquela forma, qual sua história, sua educação, seus medos, suas prioridades?

Talvez esse passo para trás nos faça visualizar melhor o outro e entender que o ego nos limita a só olhar para dentro. Entender que ninguém é inimigo por pensar diferente, que todos estamos buscando algo positivo. Estamos vivendo agora uma fagulha no tempo da história humana e que precisamos entregar qualidade a esta história, perpetuar algo melhor do que encontramos.

Aquela resposta sobre o Osho ficou a viagem toda na minha mente. Fui percebendo cada vez mais, que de fato aquilo não representava uma opinião avulsa e sim um modo cultural de interpretar as coisas.

 

A estátua de Ganesha

Como costumamos fazer em todas as viagens, trazemos algo para nossa casa, uma peça de decoração que nos remeta ao lugar que estivemos. Buscávamos uma pequena estátua de Ganesha entalhada em madeira, com traços delicados para ficar na estante de livros. Normalmente não procuramos a peça, a peça é que aparece pra nós. Apenas ficamos atentos.

Mas depois de mais de 20 dias e algumas cidades, nada do Ganesha. Até que nas últimas horas em Delhi, antes de voltar para o Brasil, decidimos dar uma volta em um centro comercial da cidade. Zanzamos por ali, comprei uma mala de viagem, pois a minha havia estourado dentro do trem para Rishikesh.

Era domingo, já perto das 22h e grande parte do comércio já fechava as portas, ao passo que voltávamos caminhando ao hotel, um por um, lado a lado. Até que a última lojinha da rua ainda estava aberta e um senhor muito simpático, reparou que olhamos para sua loja e como de costume, passou a insistir para entrarmos.

Ali estava o Ganesha que queríamos. Na última loja, no último momento da viagem. Fizemos a negociação, que é costume na Índia para qualquer coisa e fechamos a compra da nossa estátua.

Conversamos brevemente com o vendedor, dissemos que éramos do Brasil, pagamos e enquanto ele iria preparar o embrulho, ficamos observando as outras coisas na pequena lojinha. O senhor de forma absolutamente natural, se despediu de seu produtos, tocando o topo da estátua com os dedos, depois tocando sua própria testa e em seguida levantando as mãos como quem toca o universo.

Com lágrimas nos olhos apenas disse ao ser notado, quase que de rabo de olho pela Carol:

–“Eu tenho muito carinho pelas minhas peças e estou feliz que essa irá para o Brasil”.

 

Quando notei ambos estavam com lágrimas nos olhos. Nos despedimos e ele fechou sua loja e fechou nosso domingo.

Não há como ser indiferente numa situação dessas. Como não notar o potencial humano de criar empatia, de criar significado ao trabalho de uma forma tão especial.

Todos estamos fazendo algo para nós e para nossos semelhantes. Isso é viver em sociedade. Buscar entregar o nosso melhor ao outro dentro das nossas ações, nosso trabalho.

Mudaremos o mundo quando educação e empatia andarem de mãos dadas.

Um feliz novo ciclo a todos,

Namastê,

Bruno Saraiva

 

3 comentários em “Lições da Índia para um novo ano melhor”

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